Marimé, Kosher e Ṭahāra: Paralelos das Leis de Pureza entre os Roma, Israelitas e Povos Árabes
As leis de pureza ritual, "mahrimem"
O conceito cigano de "mahrimem" equivale à forma negativa do conceito judaico de "kosher" e Ṭahāra aos árabes; o primeiro indica leis de impureza ritual, enquanto o segundo se refere à pureza ritual. O que é "marimé" (impuro) para um cigano não é "kosher" para um judeu ou "Haram" para um árabe/islâmico, portanto, ambos tomarão as medidas necessárias para não se contaminarem com tais coisas, ou, se forem uma contaminação necessária e inevitável, ambos seguirão certas regras para se purificarem. Da mesma forma que o kashrut judaico, as regras que regulamentam o marimé e a voshún cisão um valor fundamental na sociedade cigana, que estabelece os limites de comportamento dentro de seu âmbito social e espiritual e condicionam seu relacionamento com o mundo exterior (a sociedade Gadje/Godjun).
Os ciganos classificam tudo em duas categorias: "vuzhó/voshún" (=kosher, puro) ou "marimé" (impuro). Essa classificação diz respeito principalmente ao corpo humano, mas se estende ao âmbito espiritual, à casa ou acampamento, aos animais e aos objetos.
* O corpo humano
Em primeiro lugar, os órgãos genitais, pois conduzem as secreções impuras para fora do corpo, e a parte inferior do corpo, por estar abaixo dos genitais. A parte superior externa do corpo é pura, sendo a boca a primeira delas. As mãos são transitórias, pois realizam atos puros e impuros; portanto, devem ser lavadas de maneira específica, por exemplo, ao comer após calçar os sapatos ou ao acordar da cama (a cama é impura por estar em contato com a parte inferior do corpo). Quando as mãos estiverem contaminadas, devem ser lavadas com um sabonete diferente e secas com uma toalha diferente para torná-las puras. Sabonetes e toalhas diferentes são sempre usados para a parte superior e inferior do corpo, e não podem ser trocados. A bacia de cobre é utilizada tanto para judeus e ciganos para lavagem de cor, itens e objetos.
* Roupas
São cuidadosamente diferenciadas, pois devem ser lavadas separadamente, em recipientes específicos para cada categoria. Roupas impuras devem sempre ser lavadas na bacia marimé, enquanto roupas puras são separadas da toalha de mesa e dos guardanapos, que possuem seu próprio recipiente de lavagem. Roupas da parte superior do corpo e roupas infantis são lavadas na bacia voshún, e roupas da parte inferior do corpo, na bacia marimé. Todas as roupas femininas são consideradas impuras durante a menstruação e lavadas junto com as peças marimé. Os únicos povos, além dos ciganos, que seguem essas regras de lavagem são os judeus.
* O acampamento
Antes da recente urbanização forçada, a casa cigana era o acampamento, e não a casa propriamente dita. O acampamento goza do estatuto de pureza territorial, pelo qual as necessidades fisiológicas são realizadas fora de suas proximidades (ou, eventualmente, os objetos de higiene são colocados fora do acampamento), sendo comum banheiros no lado de fora ou próxima da porta traseira da casa. Além disso, o lixo deve ser jogado a uma distância aceitável do acampamento ou queimados.
* Nascimento
O parto é um evento msto de impuro com puro e deve ocorrer em uma tenda isolada, fora do acampamento, quando possível. Após o nascimento da criança, a mãe é considerada impura, de marimé, por quarenta dias, se menino e sessenta dias se menina, principalmente na primeira semana: esta regra é. Durante esse período, a mulher não pode entrar em contato com objetos puros, pratos, copos e utensílios especiais são designados a ela, os quais são descartados após os 40 dias de sua purificação ou escaldados. As roupas que ela usava e sua cama são queimadas, assim como a tenda ou caravana onde ela se hospedou durante esses 40 dias. Esta lei é desconhecida por todos os povos, exceto pelos ciganos e judeus. O motivo dessa crença é a perda da placenta, onde nós ciganos já sabiamos que se tratava de um orgão (este que deverá ser enterrado ou queimado, como em tradições sefarditas), o sangue envolvido e a separação de mãe e filho, antes eram um só decaindo de um status especial.
* Morte
A morte de alguém confere impureza a todos e a tudo que estava relacionado àquela pessoa naquele momento. Todos os alimentos presentes na casa do falecido devem ser descartados, e toda a família fica impura por três dias. Regras específicas devem ser observadas durante esses três dias, como lavar-se apenas com água para não fazer espuma; pentear ou barbear-se é proibido, assim como varrer, fazer buracos, escrever ou pintar, tirar fotografias e muitas outras coisas. Os espelhos são cobertos. O local onde ocorreu a morte é abandonado e transferido para outro lugar, ou a casa é vendida, em casos extremos queimada. Acredita-se que a alma do falecido vagueia durante três dias de purificação antes de alcançar a morada final. O conceito de que o contato com um cadáver confere impureza não é encontrado em nenhuma tradição antiga, exceto na entre judeus e árabes, entre os hindus não há isso. Conforme estabelecido pela Krispen entre os ciganos os mortos devem ser sepultados e não podem ser cremados, exceto se eram anciões e membros da Kris Romá, dessa forma são cremados numa pira funeraria que deve arder até a fumaça ficar branca.
* Espíritos
Os espíritos malignos são marimé, que também é um conceito judaico. Entre eles o: Mengué, Neshuca, Nasulim, Beng e etc.
* Leis matrimoniais
O noivado e o casamento ciganos são celebrados da mesma forma que no antigo Israel e populações árabes beduínas. Os pais de ambos os noivos desempenham um papel essencial na organização do dote da noiva, e a celebração ocorre dentro da comunidade cigana, sem a participação das instituições dos Gadje, exceto para formalização posterior para garantir herança e evitar que bens não estejam escriturados (prática reforçada após anos de confisco de bens de ciganos). Caso a moça fuja com o noivo sem o consentimento dos pais, eles são considerados um casal casado, mas a família do noivo deve pagar uma indenização aos pais da noiva, geralmente equivalente ao dobro do valor do dote; essa indenização é chamada de "Daró", a noiva independentemente de ter realizado a fuga ou não recebe a "Tekapará" conjunto de joias e moedas para seu uso pessoal como mulher casada, palavra com o mesmo significado do termo hebraico "kfar" (Deuteronômio 22:28-29). O pagamento do dote pela família do noivo aos pais da noiva é uma regra bíblica, exatamente o oposto do que ocorre entre os povos indianos, nos quais é a família da noiva que paga à família do noivo.
Existe um preceito específico que deve ser observado para consolidar o casamento, o "pano de prova de virgindade", panelo/tela para os calón e dikloceló para os Vlax, que deve ser mostrado as partes interessadas da família e aos anciões. Há variações nessa tradição, com o pano após a primeira relação ou das matriarcas de ambas as famílias inserindo com auxílio de um objeto duro mas pequeno na região íntima da moça durante explicações sobre a vida conjugal. É claro que, no caso de casais que fogem, tal regra é sem sentido e, consequentemente, não é observada, sendo estratégias de casais que tiveram relações antes do casamento ou quando a moça já não era mais virgem, porém o rapaz prosseguia mesmo assim. Em relação a virgindade do homem. também é cobrada, mas não há provas para tal, alguns ciganos tinham como hábito dar vinho os fututos noivos da filha para retirar "verdades".
* Comportamento social
Assim como os judeus, os ciganos adotam padrões de comportamento diferentes para os relacionamentos com seu próprio povo e para a interação com pessoas de fora, de modo que podemos afirmar com certeza que a oposição entre ciganos/gadje, judeus/gentios e árabes/não-árabes é regulamentada de maneira bastante similar, talvez idêntica em quase todos os detalhes.
Como os Gadje desconhecem as leis que regulamentam o marimé, são suspeitos de serem impuros ou simplesmente presume-se que o sejam; consequentemente, os Romá não se hospedam nas casas dos Gadje nem comem com eles; Porém, isto foge a regra quando trata-se de dar "mila" a viajantes disponibilizando uma área isolada e utensílios isolados aos que buscam um lugar de dormida. Os Gadje que se tornam amigos dos Roma são admitidos após tomarem conhecimento das principais regras que devem observar para não ofender a comunidade e depois de passarem por alguns "testes" de confiabilidade. Muitos Gadje que tornaram-se amigos verdadeiros dos ciganos aceitando e vivendo sob as regras, principalmente em contexto de diáspora e ascensão social por meio de contados entraram discretamente em famílias Romá por meio de casamentos, sobretudo de filhos problemáticos Romani, semelhante aos povos que aceitam viver sobre as regras dos judeus e árabes.
Caso contrário, são repelidos e as instituições Gadje são usadas exclusivamente como uma "área de livre comércio", onde atividades impuras podem ser realizadas com segurança – um exemplo típico é o hospital, que permite evitar a montagem de uma tenda especial para partos. Cortesia, respeito e hospitalidade são obrigatórios entre os Roma. Ao se cumprimentarem, devem perguntar pela família um do outro, desejando a todos o bem e bênçãos, mesmo que se encontrem pela primeira vez e não conheçam as respectivas famílias. A autoapresentação inclui os nomes dos pais, avós e de quantas gerações a pessoa se lembrar — o nome civil e o sobrenome são irrelevantes; os ciganos são chamados como no mundo judaico e árabe filho de A, filho de B, filho de C, da família de D. Isso, no entanto, é uma característica comum a muitos povos orientais, mas a forma como os ciganos formulam esses termos é bastante bíblica.
Entre os ciganos, as causas judiciais são apresentadas à assembleia de anciãos, conforme previsto na Lei Mosaica. A assembleia de anciãos ciganos é chamada de "kris" e constitui um verdadeiro Tribunal de Justiça, cujas sentenças devem ser obedecidas, sob pena de expulsão da comunidade cigana, em crimes graves um Xolivalo (vingador de sangue) é designado em crimes de Shudiné, Phralimurdé e Murdadoné. Os casos geralmente não são tão graves a ponto de não poderem ser resolvidos com o pagamento de uma emenda.
Existem muitos outros aspectos que podem ter importância secundária, mas que, de qualquer forma, remetem aos antigos costumes e regras israelitas. Infelizmente, esses detalhes estão se perdendo com as novas gerações (assim como muitos se perderam entre os judeus também) devido aos sistemas da sociedade moderna que restringem a liberdade individual e das comunidades "exóticas". Os ciganos não sentem nenhuma atração pela cultura ou música indiana, talvez hoje com essa ideia consolidada de sermos "indianos diluídos" por meio de "misturas", o mais comum é a crença de escravidão no Egito e sermos nomâdes do deserto.
Na Europa Oriental, a maioria das expressões folclóricas são judaicas ou ciganas, e muitas vezes a mesma obra é atribuída a uma ou outra dessas duas tradições. Bandas de "klezmorim" eram frequentemente compostas por ciganos em conjunto com judeus, e o estilo europeu de jazz foi cultivado tanto por ciganos quanto por judeus. A música Rumlaí/Romalaja foi desenvolvida por ciganos e judeus no balcãs com poemas e cânticos de amor. O flamenco provavelmente se originou entre os ciganos Andaluzes e Judeus sefarditas em baladas frequentadas por ambos, antes de serem expulsos da Espanha e, posteriormente, sendo continuamente desenvolvido pelos ciganos que permaneceram naquele país. A dança do ventre foi criada por ciganas Ghawazzín do Egito, difundidas no mundo árabe, infelizmente as cigans Domari do subclã Ghawar foram perseguidas e prostituidas por serem creditadas a aumentar a fertilidade masculina.
Em outros aspectos, os ciganos possuem grande habilidade comercial (e, se precisam trabalhar em sociedade, preferem os judeus) e aqueles que optam por uma inserção profissional na sociedade cigana geralmente preferem as mesmas carreiras escolhidas pelos judeus (talvez relacionado às leis de pureza, que não permitem o exercício de qualquer tipo de trabalho).
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