O termo Qalé (ou Qallã) designa um dos ramos ciganos ibéricos, citados como aparentado e com conexão etimológica e histórica com grupos mencionados no norte da África e no Oriente Médio, como os Nawar e Ghajar.
1. “Qalé” como nome étnico cigano ibérico
• O termo Kale / Calé / Qalé (do Romani kalo, “preto” ou “escuro”) é o nome que os ciganos da Península Ibérica (Espanha e Portugal) usam para si mesmos desde o século XV.
• A palavra deriva do romani antigo kalo (negro) — um autodescritivo étnico.
• Assim como Rom significa “homem/povo”, Kalo ou Kale significa “pessoa negra / cigana”.
• Relação com termos árabes como “Qalī”, “Qallā”, ou “Qalī” (قلّي / قَلَى) — mencionados em fontes árabes medievais.
Fonte clássica: Angus Fraser, The Gypsies (1992); Yaron Matras, Romani: A Linguistic Introduction (2002).
Fonte ibérica: Teresa San Román, La Diferencia Inquietante: Viejas y Nuevas Estrategias Culturales de los Gitanos (1997).
Em alguns relatos árabes, sefardí com os Achin Shejaḥú (irmãos exóticos) e mamelucas, aparecem os Qalī/Qalé em 932 d.c:
• Em textos árabes medievais, especialmente magrebinos, qallā ou qalī pode significar “aquele que queima” — indicando profissões de ferreiro, caldeireiro ou metalúrgico, até mesmo cor de pele.
• Alguns estudiosos (como Fraser e Hancock) notam que muitos grupos itinerantes identificados como Ghajar, Nawar e os ibero-romani exerciam exatamente essas profissões (metalurgia leve, reparo de panelas, forja ambulante e comércio).
• O termo “Qalé” tem fortes evidências de ter origem Ibéria também por associação fonética com essa tradição artesanal — os “ferreiros negros”, “os escuros”, vindos do Egito Menor com seus "irmãos" Nawar (Domaris).
Fonte: Al-Maqrīzī, Al-Khiṭaṭ al-Maqrīziyya, ed. 1853, menciona grupos itinerantes metalúrgicos (ṣanāʿa ṣighār min al-qallāyīn).
Comentário moderno: Yaron Matras (2002, p. 35) menciona a convergência semântica entre kalo (romani) e qallāyīn (árabe para caldeireiros ou fundidores).
Relações Qalé com Ghajar e Nawar
• Em algumas regiões do Egito e Magrebe, os Ghajar/Gwazee (غجر) eram chamados também de Qalé ou Qalā, de modo dialetal.
• Esse uso aparece em descrições etnográficas do século XIX, mas sugere uma memória antiga da designação.
Fonte: Edward William Lane, An Account of the Manners and Customs of the Modern Egyptians (1836):
“The Ghagar, called also the Kalé, are gypsy-like wanderers, living by fortune-telling and small handicrafts.”
"Kalé” é o nome usado por egípcios para grupos itinerantes do Egito Menor (nota: Lane viveu no Cairo entre 1825–1835).
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