sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Origens Cananitas e Semitas na Identidade e Origem Romani e do Clã Calón

 Origens Cananitas, Semitas e Judaicas na Identidade e Origem Romani e do Clã Calon: Um Estudo Interdisciplinar


1. Identidade e Genética


A hipótese de uma ancestralidade semita significativa entre os povos Roma reconfigura parte substancial da narrativa historiográfica e genética dominante. Tradicionalmente, os Roma são descritos como originários do noroeste da Índia, tendo migrado gradualmente para a Europa. Contudo, os dados genéticos, combinados com elementos culturais e linguísticos, sugerem que essa jornada pode ter começado ainda antes — no Crescente Fértil — com grupos semitas deslocados para o Oriente, como os Zott e Recabitas.

Essa hipótese amplia o entendimento da identidade Romani ao revelar uma composição profundamente híbrida, fruto de séculos de deslocamentos, sincretismos e marginalizações. estudo de Gresham et al. (2001) revelou que 72% das linhagens femininas dos Roma não são de origem indiana, e 65% a 80%  de acordo com Calafell et al. (2022) não contempla Sul e Sudoeste Asiático na composição étnica, mas sim, em ambos, proeminentemente do Oriente Médio, Ásia Central e Europa. 


Dr. Douglas D. Schar (2024) O estudo de Schar apresenta o caso de uma família anglo-romani cuja linhagem genética revela ascendência judaica, provavelmente oriunda de judeus expulsos da Espanha e Alemanha após 70 d.C. Esse dado contribui para a reinterpretação das origens ciganas, sugerindo vínculos com populações sefarditas e as diásporas judaicas medievais. 


Em mesmo caminho Uri D. Toyber (2024) Toyber analisa os "Judeo-Kale", um grupo híbrido que mescla práticas sefarditas com tradições romani. Enfoca as regiões ibéricas e coloniais (América Latina e sudoeste dos EUA), mencionando os Genízaros, Kalés espanhóis, portugueses e mexicanos. No contexto da América  latina ficou nítido culturalmente e ancestralmente o intercâmbio étnico por meio de conversões, reconhecimentos místicos pela oralidade sefardita de como Tribos Perdidas (Manachem ou Shimon) e casamentos. De mesmo modo com mouros, com grutas no Marrocos onde ocorriam essas cerimônias entre judeus e ciganos pré e pós expulsão na Península Ibérica, durante período colonial com mestiçagem com negros e indígenas durante perseguição do Santo Ofício e adequação à nossa pátria.


2. Estudos Históricos e Socioculturais



O conhecido e consolidado estudioso Ian Hancock (1987 e 2005) Hancock compara a marginalização sofrida por ciganos e judeus, com ênfase na escravidão cigana na Romênia. Ele argumenta que ambos os grupos foram submetidos a estratégias de exclusão racial, apontando afinidades nas estruturas de opressão. Em seus estudos linguísticos e étnicos ressalta contudentes traços culturais e linguísticos compartilhados entre comunidades marginalizadas, incluindo léxico com influência semita e origem de povos de Canaã, tantls dialetos ciganos, crioulo atlântico, tradições, costumes e rotas já estudadas realizadas pelos ciganos pelo mundo. Ian Hancock em textos e entrevistas neste acervo reforçam a presença de tradições judaicas e práticas religiosas compartilhadas entre judeus e Roma, com destaque para oralidade, resistência, leis internas e rituais de pureza.


Remembering for the Future (Vol. 3) – "Zhutane Roma" Descreve experiências de Roma com raízes judaicas durante o Holocausto. O termo "Zhutane Roma" identifica Roma com ascendência, conversão ou prática judaica, destacando a perseguição racial comum aos dois grupos mesmo durante e pós Holocausto, destacando também aspectos como assimilação e abandono com os laços Roma.


3. Literatura e Representações Simbólicas


Daniel Deronda & The Spanish Gypsy, obra de George Eliot Ambas abordam personagens híbridos (judeus ciganos) como arquétipos de identidade marginal. Eliot explora temas como exílio, messianismo e autodeterminação cultural. Baseado em contos e mitologias ditas pelas próprias comunidades sefarditas da Espanha e nas Cortes Reais da Ibéria, deixando em aberto se às obras foram baseadas em eventos reais. Felicia Bonaparte (1979) Bonaparte identifica símbolos de pureza, sacrifício e redenção tanto no imaginário judaico quanto cigano, pessoas que apresentaram resistência em meio a perseguição na Península Ibérica, com destaque para a heroína cigana e judia de The Spanish Gypsy. William Baker Baker enfatiza como Eliot associa personagens judeus e ciganos à construção de identidades híbridas, abordando a convergência entre exclusão social e força espiritual, havendo base histórica, contextual e tradicional das obras, apresentando acontecimentos reais em tão épico, romântico e trágico, comuns na literatura da época, mesmo em documentos de teor histórico.


4. História Judaica na Espanha e Interações com os Ciganos 


4.1 Vestígios Históricos e Orais Judaicos:


Samuel G. Armistead e Joseph H. Silverman (1987), ao analisarem os tradições sefarditas preservados por Yitzhak Levy, e sua conunidade, evidenciam a transmissão de narrativas orais nas quais os ciganos são associados aos Recabitas e Levitas da linhagem de Moisés — sendo o primeiro grupo bíblico errante que rejeitava sedentarismo, vinho e agricultura, citados como absorvidos em parte pela tribo de Levi. Essa imagem encontra eco tanto na espiritualidade cigana quanto na mística judaica. Os paralelos com práticas de pureza, itinerância ritual e marginalidade são ressaltados nas baladas e sinagogas sefarditas e em registros orais que circulavam entre judeus e Calé, em grupo mais específico os "Kalé-judeus", algumas fontes adicionais citam eles como os "Kalé-Yehudim".


. A History of the Jews in Christian Spain, Vol. 2 – Yitzhak Baer (1992) Aborda as estratégias de sobrevivência dos judeus, e outros comunidades, sob o domínio cristão, inclusive conversões forçadas, que podem ter originado grupos híbridos como os Calé, ou até antes mesmo com evidências de trocas culturais com povos nômades denominados "escuros". Abraham Neuman (1942) Foca nas dinâmicas sociopolíticas que envolveram os judeus na Espanha, influenciando diretamente comunidades como os Kale ibéricos.


4.2 Hipóteses e Vestígios Recabitas na Origem dos Ciganos: Perspectivas de Autores do Século XIX


Entre as várias hipóteses elaboradas no âmbito histórico, linguístico, místico e teológico por autores europeus dos séculos XVIII e XIX, reforçando informações preservadas por judeus sefarditas na Turquia e Ibéria, destacando-se a associação entre os ciganos e os recabitas e tribos perdidas, grupo mencionado na Bíblia, especificamente em Jeremias 35, por sua vida nômade, abstinência de vinho e fidelidade rigorosa a tradições patriarcais. 


Essa ideia encontrou eco em autores como George Borrow, Heinrich Moritz Grellmann, Samuel Roberts e Charles Leland, além de outros escritores religiosos e esotéricos da época.

George Borrow, em sua obra The Zincali: An Account of the Gypsies of Spain (1841), menciona a teoria recabita como uma das muitas especulações sobre as origens dos ciganos, principalmente pelas rotas realizadas, relatos encontrados no Egito, Jerusalém,  Palestina e Turquia. Embora não a endosse diretamente, ele apresentava a imagem do cigano como herdeiro de uma espiritualidade antiga, associando seu nomadismo a uma pureza preservada, reminiscente dos recabitas bíblicos, sendo também um dos primeiros a localizar o êxodo cigano depois do ano 70 D.C.


O eatudioso Heinrich Moritz Grellmann, em sua influente Dissertation on the Gipsies (1783), oferece uma crítica erudita às hipóteses bíblicas e mitológicas, incluindo a associação com os recabitas. Grellmann favorece uma abordagem filológica e linguística propõe, com base em comparações e relatados de registros históricos, a origem indiana dos ciganos. No entanto, ele reconhece que a tentativa de investigação da origem semita dos ciganos ia além de inseri-los na sociedade cristã, reconhecendo os estudos de seus colegas acadêmicos como legítimos e com boa fundamentação, porém com insuficiência de provas robustas.


Samuel Roberts, por sua vez, em The Gypsies, their Origin, Continuance, and Destination (1836), retoma com mais ênfase a conexão entre os ciganos e os recabitas. Em sua perspectiva religiosa e linguística, os ciganos seriam um povo preservado por Deus, como os recabitas, à margem das nações, mantendo tradições e uma missão espiritual desconhecida. Sua leitura de Jeremias 35 serve como base para essa associação: os recabitas recusam o vinho, vivem em tendas, e seguem os mandamentos de seu ancestral Jonadabe — características que Roberts vê espelhadas nos Roma. Entretanto, não se limitando a concepção religiosa traçou semelhanças realmente intrigantes da Lei Cigana e Moisaca, das regras de pureza, o fato passado despercebido que já chegaram monoteístas na Europa e similaridades em frases do cotidiano e palavras com o hebraico bíblico.


Charles G. Leland, em The Gipsies: Their History, Characteristics and Social Position (1882), também menciona a hipótese recabita, ao lado de outras teorias místicas e orientais. Ele vê paralelos no estilo de vida cigano — marcado pelo nomadismo, independência e certa separação cultural — que ressoariam com os valores dos recabitas veterotestamentários. A mesma linha de pensamento surge ainda em autores como James Crabb (The Gipsies' Advocate, 1831), com motivações missionárias, e em obras esotéricas como The Rosicrucians: Their Rites and Mysteries (1870), de Hargrave Jennings, que liga os ciganos a tradições ocultas e milenares tanto árabes, judeus, egípcios e persas. Textos teosóficos e adventistas do período também veem nos ciganos um “remanescente fiel” de antigas tribos israelitas — interpretação comum no discurso milenarista do século XIX.



5. Antissemitismo e Interações Medievais


A origem do povo Romani é tema de debate e pesquisa há séculos. Assim como antiziganismo, dua escravatura no Oriente Médio, Ásia Central,  Cáucaso e Europa. Embora pesquisas genéticas e linguísticas apontem para o noroeste da Índia como ponto dos pontos de partida dos ciganos, principalmente a região do Punjab, após a ocupação Islâmica na Índia. No entanto, há uma série de evidências linguísticas, culturais e tradicionais que indicam um componente semítico marcante na constituição desse povo. 


A obra Anti-Judaism &Communities of Violence – David Nirenberg (1996 e 2013) Explora como a violência simbólica e literal entre cristãos, judeus e muçulmanos ajudava a reforçar fronteiras identitárias. Também traça o desenvolvimento histórico do antijudaísmo e sua influência em outras formas de discriminação, e como o antiziganismo eram paralelos e similares ao antissemitismo, declarando que a experiência cigana não era desconhecida por judeus, muitas vezes visto com um olhar de compaixão e irmandade. Em Neighboring Faiths – David Nirenberg (2014) Analisa interações religiosas na Espanha medieval, sugerindo que a fronteira entre judeus e ciganos era porosa e sujeita a constante renegociação em vários níveis, simbólicas, culturais, comerciais, étnicas e de experiências.


6. Hipóteses e Teorias de Origem Primárias em no século 18 e 19


Angus Fraser Fraser compila teorias de origem dos Roma, incluindo a ligação com tribos israelitas perdidas ou egípcios bíblicos. Mostra como essas lendas refletiam o imaginário europeu. George C. Soulis Identifica os "Atsinganoi" como possíveis descendentes dos Zott do Oriente Médio, grupo de origem semita. Destaca associações com feitiçaria e exclusão social.

The Judeo-Spanish Ballad Chapbooks of Yitzhak Levy – Armistead & Silverman Analisam a presença de temas e personagens ciganos reais e romantizados em comunidades sefarditas, em seus templos e convivência social, a origem cigana incluindo os Recabitas e Tribos Perdidas exiladas na Índia, como um grupo reconhecido pela própria bíblia e nômade. O autor J.G. Herder (1800) Herder propõe uma humanidade comum, mas com expressões culturais distintas. Sua obra influenciou tanto teorias de origem mestiça  indiana e semita dos ciganos, com robustes e honestidade em sua obra.


7. Metodologia


Este estudo adota uma abordagem interdisciplinar e qualitativa, combinando pesquisa histórica, análise literária, revisão bibliográfica e dados genético-antropológicos. A metodologia foi estruturada em três eixos:

• Revisão bibliográfica crítica: foram analisadas obras de referência nas áreas de história judaica, estudos romani, etnografia, genética de populações e literatura comparada. Destacam-se autores como Ian Hancock, Yitzhak Baer, David Nirenberg, Uri D. Toyber, Douglas D. Schar e George Eliot.

• Análise de fontes primárias e secundárias: foram consultados arquivos históricos, relatos orais sefarditas (preservados por Yitzhak Levy), obras literárias do século XIX e registros do Holocausto (como Remembering for the Future), além de tratados etnográficos do período iluminista e romântico.

• Intersecção genética-cultural: foram considerados estudos genéticos contemporâneos (Gresham et al., Calafell, Mendozabal) que indicam a presença de haplogrupos do Oriente Médio e Europa Mediterrânea nos grupos Roma, com possível origem pré-índica ou influência semítica/recabita. A análise desses dados foi feita em articulação com práticas culturais e linguísticas registradas nos dialetos Kalé e Romani.

Além disso, a pesquisa dialoga com tradições da memória oral e simbólica, buscando respeitar as narrativas e cosmologias próprias dos povos Romani e suas conexões com tradições judaicas e cananitas.


8. Discussão 


A investigação proposta reafirma a complexidade da identidade romani e desafia a linearidade da narrativa tradicional sobre sua origem exclusiva no noroeste da Índia. Os dados genéticos, quando correlacionados com traços culturais, linguísticos e históricos, apontam para um entrelaçamento profundo com povos de matriz semita — especialmente judeus, árabes e tribos bíblicas como os recabitas. A presença de práticas como leis de pureza, oralidade como forma de preservação, regras matrimoniais internas e resistência a assimilações externas são paralelos inegáveis com as tradições judaicas e levíticas.



A hipótese de uma origem semita para certos grupos romani — especialmente os Kalé ibéricos, os Lăutari romenos e os Dom do Oriente Médio — emerge com força a partir de uma análise interdisciplinar que abarca elementos linguísticos, culturais, espirituais e históricos. Embora a origem indo-ariana dos Roma esteja amplamente documentada pela genética e pela linguística comparada, este estudo propõe que essa trajetória foi significativamente marcada por um entrelaçamento com povos semitas, sobretudo judeus e tribos bíblicas, como os recabitas, durante o trânsito pelos territórios do Crescente Fértil e da antiga Canaã.


A tradição oral romani, especialmente entre os Kalé ibéricos e domari do Levante, preserva traços que remetem diretamente a práticas e conceitos semitas. A valorização da pureza ritual (com paralelos no conceito de tum’a e taharah do judaísmo), a oralidade normativa (sem uma Torá escrita, mas com um corpo de leis transmitidas de geração em geração), e os interditos alimentares e matrimoniais internos refletem uma cosmovisão ética e religiosa próxima ao modelo levítico. A própria estrutura tribal, com funções sacerdotais e linhagens transmitidas por meio de marcadores espirituais e culturais, é análoga à organização das antigas tribos de Israel.


A contribuição de autores como Ian Hancock e David Nirenberg é fundamental ao ressaltar não apenas a marginalização compartilhada entre judeus e ciganos, mas também a manutenção de práticas culturais resilientes em contextos hostis. O fato de que grupos como os Kalé-Iberianos e Kalé-Yehudim preservaram oralidades ligadas à narrativa das Tribos Perdidas, como apontam Toyber e Armistead, indica que há uma continuidade cultural e identitária que sobreviveu à diáspora, à perseguição inquisitorial e ao holocausto cultural de comunidades híbridas.


Na literatura, a construção simbólica de personagens híbridos, como em The Spanish Gypsy e Daniel Deronda, não é apenas um artifício narrativo, mas um reflexo da realidade de comunidades que encarnavam essa dualidade vivida. O hibridismo aparece não como anomalia, mas como resistência: um modo de existir entre mundos — judeu e cigano, sefardita e romani — sem negar a ancestralidade múltipla.

Adicionalmente, a teoria da origem recabita, presente em estudiosos do século XIX como Borrow, Roberts e Leland, embora frequentemente marginalizada pela historiografia moderna, merece reavaliação à luz dos paralelos práticos e culturais entre recabitas e Roma. A recorrência dessa hipótese em fontes sefarditas orais e escritas indica que ela não era apenas uma especulação exótica europeia, mas parte de uma memória coletiva ancestral transmitida entre judeus e ciganos da Península Ibérica, norte da África e Oriente Médio.

A discussão sobre o antissemitismo e o antiziganismo reforça, conforme aponta Nirenberg, que esses grupos não apenas compartilhavam exclusão, mas também viam um no outro reflexos de sua própria história de sobrevivência. O conceito de “Zhutane Roma”, discutido na obra Remembering for the Future, exemplifica essa intersecção, muitas vezes silenciada, entre as duas identidades. A teoria da origem recabita, mencionada por autores como George Borrow, Charles Leland e Samuel Roberts, ganha nova relevância quando reavaliada em consonância com as práticas ascéticas, nômades e de resistência cultural dos Roma. Os recabitas, descendentes de Jonadabe, aparecem no Livro de Jeremias como um grupo que recusa o assentamento urbano, a propriedade privada e o vinho, mantendo-se fiéis a um estilo de vida nômade em aliança com princípios espirituais ancestrais. Essa descrição ecoa profundamente no ethos de várias comunidades romani, sobretudo nas que mantêm uma forte resistência à assimilação ocidental e estatal.


É nesse ponto que se destaca a presença de elementos claramente judaicos em dialetos como o caló e o domari, com vocábulos de origem hebraica, aramaica ou árabe, e em práticas culturais híbridas preservadas pelos Kalé Yehudim (ou Cigano-Judeus) documentados em tradições orais sefarditas e registros inquisitoriais. As fontes literárias analisadas, como The Spanish Gypsy (Eliot) e Jewish Responses to Romani Persecution, ilustram como esse cruzamento identitário não era apenas percebido externamente, mas internalizado pelos próprios grupos em suas autodefinições e mitologias de origem.


Além disso, a marginalização histórica simultânea de judeus e ciganos — marcada por perseguições inquisitoriais, pogroms e o Holocausto — reforça a tese de uma solidariedade histórica baseada não apenas na exclusão comum, mas em laços ancestrais efetivos. A ideia de uma identidade híbrida semita-romani se manifesta com mais clareza no conceito de Zhutane Roma (Roma judeus), e nas tradições ibéricas que preservam termos como melamed, cohan, shabbes, ou nomes de origem hebraica adaptados à fonologia romani.


Por fim, esta discussão propõe que certos grupos romani não apenas passaram por territórios semitas, mas absorveram e reinterpretaram, ao longo de séculos, tradições judaicas, recabitas e mesmo místicas hebraicas como parte constitutiva de sua identidade. Isso não exclui, mas enriquece a narrativa indo-ariana ao revelar uma trajetória transcontinental e espiritual mais ampla — que atravessa Índia, Babilônia, Canaã, Andaluzia, Bálcãs e Europa Central — em busca de uma continuidade cultural marcada pela resistência, pelo segredo e pela memória, propque a identidade romani — particularmente entre os Kalé e outros grupos ibéricos e do sudeste europeu — deve ser compreendida como um mosaico étnico e espiritual, no qual elementos indianos, semitas, africanos e europeus coexistem. Essa abordagem interdisciplinar permite não apenas redimensionar a origem dos Roma, mas também recuperar a memória de interações históricas que a narrativa colonial, eurocêntrica ou racializada tentou apagar.


Conclusão


Este corpo interdisciplinar de fontes revela a complexidade da identidade cigana, marcada por diálogos profundos com a tradição judaica – seja por meio de genética, linguística, história ou literatura. A convergência entre experiências de marginalização, mitologias compartilhadas e práticas culturais reforça a hipótese de uma ancestralidade e convivência comuns. Uma releitura crítica e ampliada das origens dos povos Romani, especialmente Kalé e Rom, ao considerar a possibilidade de componentes semitas, cananitas e judaicos em sua constituição histórica, simbólica e genética. A partir da articulação entre dados genéticos, tradições culturais, registros históricos e literatura comparada, torna-se plausível a hipótese de uma identidade cigana híbrida, com raízes tanto no noroeste indiano quanto no Oriente Médio e na Península Ibérica.

A presença de elementos como o nomadismo ritual, práticas de pureza, estrutura patriarcal interna, terminologias semitas nos dialetos romani e semelhanças com os Recabitas bíblicos apontam para uma linhagem mais complexa e multifacetada. A identificação de judeus-ciganos (Kalé-Yehudim), bem como a coexistência simbólica e real desses povos na Espanha medieval e no exílio, reforçam a permeabilidade cultural e os cruzamentos históricos.


 O estudo das interseções entre os Calé, Roma e os judeus sefarditas e as suas influências oferece uma nova perspectiva sobre a história das identidades nômades e perseguidas da Europa e da Diáspora. Evidenciando que parte da população cigana poderia descender de judeus convertidos ou assimilados, oferecendo uma nova perspectiva sobre a identidade Kale e Romani. A análise sugere que a história cigana inclui elementos judaicos apagados ou reinterpretados, recebendo luz com estudos restaurados e com o auxílio da investigação genética dos ciganos.


Evidenciando uma origem incompatível com exclusivismo ou essencialismo, mas reconhece a pluralidade formativa do povo Romani, cujas experiências de marginalização, resistência e adaptação se aproximam de maneira notável às trajetórias judaicas na história europeia e mediterrânea.

Em tempos de revisão de narrativas históricas, este trabalho contribui para repensar categorias identitárias, abrindo espaço para reconhecimentos que respeitem tanto a ciência quanto a memória ancestral dos povos Roma.



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