Mito Fundador Romá - Presente entre Balkanós Aurari e Calón
No início, havia o Baron Duvel e o Beng, um protetor do pilar do mundo que se revoltou, mas Baron Duvel o amava por ser sua primeira criação com mente. Beng o desafiava por achar um absurdo ele ter criado duas almas como a dele. Beng então propôs ser o acusador dos homens na terra. Um dia, enquanto caminhavam pela margem do grande rio, o Beng disse: "Eu sou capaz de descer até as profundezas do rio e ficar lá enquanto Baron Duvel termina a criação".
Baron Duvel, com Seu Trilashon, ordenou à criação do mundo, e fez o homem — elevou Damo do pó e preencheu com seu espírito; Zushí ele fez a partir do espírito que pairava nas águas, depois misturou ambos em um só. Um dia Damo não queria um companheiro e não sabia que Zushí dormia dentro dele. Então Baron Duvel fez Zushí emergir do próprio Damo. E Baron Duvel fez duas árvores — à pereira e à macieira que dessem frutos, e fez Damo que comesse as peras e a Zushí as maçãs. Mas que jamais Damo comesse maçãs.
Então, sentiram desejo um pelo outro e, após a ordem de Baron Duvel, fizeram amor. No entanto, a mulher, insaciável, pediu ao homem que repetisse o ato muitas vezes. Com isso, Baron Duvel disse: "Tu, mulher, nunca te fartarás; teu desejo será sempre por teu marido" e "Tu, homem, para ter de dar à mulher trabalharás duro".
Beng aproveita a situação e emerge da água como um Sherkanuo, fez a mulher ver água proibida dentro dele — o Jakh da mulher abriu, e nela via o espiritual de tudo. E para o homem apareceu como Halla — o homem, querendo saber, bebeu a água do próprio espírito de sua mulher que veio das águas, o que Baron Duvel havia proibido, pois ele era terra e ela água, induzido por Beng a fazer isso e a mulher cedeu. Com isso, ele viu a nudez espiritual, e Baron Duvel os abandonou à própria sorte e travou guerra contra o mal gerado — pôs Beng a rastejar no pó. Damo e Zushí tiveram Sef e Kali, e um mal chamado Sarpim.
Neste mundo primordial, Baron Duvel tinha alguns companheiros: Barô Sef, Barô Abaran, Barô Poishel e Barô Krisna. Estes eram os suntse, os ancestrais. Com eles estava também Pharavono, que mais tarde se separou deles, causando a divisão da humanidade, até então uma só raça e falando uma só língua, em dois grupos: os Horaxané, liderados por Yinsef, e os Pharavonuria, liderados por Pharavono.
Este grupo manteve-se isolado no início, mas depois, multiplicando-se e cheios de inteligência e ousadia, decidiram conquistar toda a terra. Portanto, Pharavono moveu guerra contra os filhos de Yinsef, mas ele não sabia que era o próprio Baron Duvel liderando seu exército. Pharavono atravessou o rio, invocando o poder de Baron Duvel; mas ao cruzar o mar, cheio de orgulho, invocou seu próprio poder e foi subjugado pela água. Poishel, com sua Vara com o poder do Trilashon, não deixou o povo de Yinsef morrer. Sua última tentativa de adorar um ídolo de pedra foi punida por um raio. Toda a terra habitada foi inundada.
Baron Duvel refez a terra e a ampliou, e a entregou aos filhos de Poishel, os Djudin, e carregou o sol para o Rhayo, o outro mundo acima das estrelas. Os Pharavonos afogados caíram no Yado, o abismo subterrâneo para onde vão todos os mortos da morte maligna. Havia povos que serviam os Pharavonos, fugiram, misturaram-se com o povo de Poishel, pois eram filhos de Abaram também, formando nós, isto é, os ciganos.
Porém, quando tivemos o Grande Norte, ao só dar nossas filhas aos Djudin e não todo o povo, fizemos uma grande traição adorando o Bealizó. Logo, os ciganos estão condenados a nunca terem seu próprio território nacional, nem organização política, nem igreja, nem alfabeto, porque toda a sua cultura foi inundada pelo mar da serpente de Beng. Aguardamos o Barô Lumia para irmos novamente ao Norte e aos Djudin, povo de Baron Duvel.
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Estudos e observações sobre esse mito:
O mito de Baron Duvel e Beng, preservado entre antigos grupos Vlax e ainda ressoante em tradições orais de alguns Balkanó Aurari e Horarone e Calés espanhóis ligados a comunidades neocatecumenais das antigas favelas ciganas, é uma cosmogonia de caráter profundamente sincrético — mas não somente isso — um retalho vivo de onde passamos e o que foi preservado como espiritualidade e cosmovisão.
A presença judaico-cristã é evidente na estrutura da criação e da queda: Damo e Zushí correspondem ao arquétipo de Adão e Eva, e Baron Duvel ocupa o lugar do Deus criador que molda o homem do pó e o enche de espírito. O interdito do fruto, a tentação, o desejo e a punição ecoam o drama bíblico do Éden. Contudo, aqui o criador é menos transcendente e mais humano: ele ama, se ira, lamenta e age com emoção. Beng, por sua vez, não é o mal absoluto, mas o espírito rebelde que traz consciência e desordem, o acusador dos homens, muito mais próximo do Samael gnóstico do que do Satã bíblico.
Essa ambiguidade moral e espiritual é o ponto de inflexão do mito, revelando uma cosmovisão dualista, onde a luz e as trevas coexistem e dependem uma da outra. Beng, o protetor do pilar do mundo que se revolta, encarna o princípio da curiosidade e da rebeldia criadora — aquele que quebra a ordem para abrir o caminho do conhecimento, tipicamwnte zoroastra. O episódio da “água proibida” e do “Jakh da mulher”, que se abre para ver o espiritual de tudo, é uma alegoria da gnose, o despertar interior que liberta, mas também condena. O mito cigano, aqui, parece ecoar uma sabedoria antiga: que a consciência tem um preço, e que a visão do invisível desestabiliza a própria criação.
Mas há também uma corrente mais profunda, de ressonância indo-iraniana e indiana, que dá ao mito sua coloração espiritual única. O nome Duvel/Del/Devel, variante cigana de Deval (deus, em sânscrito), como do antigo El cananita, aponta para antigas heranças arianas e mesopotâmicas na linguagem e na mitologia romani. O Trilashon, instrumento criador de Baron Duvel, lembra o Trishula de Shiva, o tridente que reúne os três poderes cósmicos: criação, preservação e destruição, posteriormente vistas como Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, uma visão da trindade. As figuras de Abaran, Poishel e Krisna evocam ecos de divindades e heróis do mundo védico e persa — Ahura Mazda e seus Amesha Spentas, Krishna e seus companheiros divinos, ou mesmo Abraão, Moíses e Cristo. Guerra entre Pharavono e os filhos de Yinsef se assemelha aos combates míticos entre devas e asuras, entre o princípio da luz e o da escuridão, como também entre os Egipcíos e os Hebreus. Essa presença da Antiga Média (Irã/Iraque) não é fortuita: ela recorda a própria jornada ancestral dos Romá.
A parte final do mito é nitidamente romani. O destino dos ciganos — um povo sem pátria, sem templo e sem escrita — é reinterpretado como resultado de uma antiga transgressão cósmica: ao adorar o Bealizó (um espécie de demônio ou pecador extremo, vindo de Bilashó), o povo teria quebrado o pacto com Baron Duvel. A errância torna-se, assim, não um castigo moral, mas uma condição sagrada, uma marca espiritual herdada da mistura entre terra e água, carne e espírito. O cigano, nessa leitura, é o guardião de um segredo primordial, um povo que carrega o eco do primeiro erro e da primeira liberdade.
No horizonte desse mito aparece ainda a promessa de um retorno: o Barô Lumia, figura messiânica que levará o povo novamente ao Norte, hoje interpretada por Jesus Cristo, por outros Ysha islâmico ou Maomé, símbolo do eixo divino e do mundo original antes da separação. Essa esperança aponta para uma dimensão escatológica que transcende o tempo histórico e afirma que, mesmo condenados à errância, os Romá conservam um destino luminoso, ligado à restauração da ordem perdida.
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