sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Memórias Ciganas: Leituras Históricas Sobre o Povo Romani na Perspectiva Judaica

 Memórias Ciganas: Leituras Rabínicas, Sefarditas e Históricas Sobre o Povo Romani


1. Introdução


A figura do povo errante ocupa lugar central na tradição judaica, seja como símbolo do exílio, da fidelidade espiritual ou da purificação divina. Ao longo dos séculos, os povos nômades têm sido objeto de especulações identitárias, e entre eles, os Roma — conhecidos popularmente como ciganos — têm sido associados a narrativas místicas e simbólicas sobre linhagens perdidas, descendência de Abraão e figuras bíblicas como os Recabitas. A hipótese predominante “Índia > Europa” falha ao ignorar evidências de um fluxo inverso, mais coerente com os dados de grupos levantinos e ibéricos. Entre eles, destaca-se uma rota de migração e retorno:


Levantino/Semita > Egito > Índia (cativeiro) > Europa e Norte da África.


 Este artigo reúne dados da literatura rabínica e da tradição oral sefardita para explorar possíveis vínculos culturais e simbólicos entre os Roma e antigas linhagens judaicas nômades, especialmente os Recabitas descritos no livro de Jeremias e seus ecos em fontes midráshicas e talmúdicas. Cecil Roth, em sua obra seminal A History of the Marranos, menciona que comunidades ciganas na Península Ibérica serviram, em alguns contextos, como abrigo para judeus fugitivos e conversos que buscavam anonimato. Dada a marginalização comum a ambos os grupos, há registros de cooperação mútua, casamentos mistos e sincretismos culturais. Roth argumenta que a fluidez entre fronteiras étnicas durante a perseguição inquisitorial permitiu o surgimento de identidades híbridas, incluindo ciganos com memórias e ancestrais judeus, por meio de conversão e ascendência prévia.


2. Os Recabitas em Jeremias 35: Raízes da Errância Justa


No capítulo 35 do livro de Jeremias, os Recabitas são apresentados como um clã que rejeita a agricultura, o consumo de vinho e a vida urbana, seguindo as instruções de seu ancestral Jonadabe, filho de Recabe. Este grupo é elogiado por sua fidelidade, sendo tomado como exemplo diante da infidelidade de Judá:

"Porque os filhos de Jonadabe, filho de Recabe, cumpriram a ordem que seu pai lhes deu, mas este povo não me obedeceu." (Jeremias 35:16)


Essa figura dos Recabitas como nômades fiéis, que vivem fora das estruturas urbanas e rejeitam prazeres mundanos, teve grande impacto nas tradições rabínicas e místicas. Como observa Ben Zvi (2007), a figura do Recabita emerge como um arquétipo do justo marginal, que, embora fora do centro da comunidade, está em aliança com o divino.


3. O Midrash Rabá e a Nobreza da Vida Errante


No Midrash Rabá, especialmente em Bamidbar Rabá 10:5, a fidelidade dos Recabitas é celebrada em contraste com a decadência moral de outros grupos. Sua opção por uma vida errante e afastada do vinho e da terra é descrita como nobre e espiritual, sugerindo uma santidade ligada ao nomadismo:

"Bem-aventurados os filhos de Recabe, que mesmo sem a Torá escrita mantiveram fielmente o mandamento de seu pai."


Essa valorização da vida nômade aparece em diversos trechos do Midrash e se conecta com as interpretações da errância como símbolo da Shechiná (Presença Divina) em exílio — tema recorrente na tradição mística judaica.


4. O Talmude e os Povos Errantes


Diversos trechos do Talmude Bavli e Yerushalmi mencionam povos que vagavam sem terra fixa, muitas vezes em contextos de purificação, exílio e preparação para a redenção:


• Sanhedrin 98a menciona grupos errantes como indicadores da vinda do Messias.

• Avodah Zarah 24b descreve povos não israelitas, ou ao menos puros, que mantinham costumes semelhantes aos hebreus e vagavam pelas fronteiras da terra de Israel. As notas de rodapé falam da possibilidade desses povos serem descendentes de Abraão ou mesmo de Israel.

• No Talmude Yerushalmi (Berachot 9:1, 13a), os comentaristas mencionam povos em constante errância como “espelhos” da Shechiná, indicando que essas comunidades podem representar não apenas exílio, mas também uma fidelidade sutil à presença divina. Contêm relatos sobre grupos que vagavam sem terra fixa, semelhantes aos povos ciganos muitas vezes associados a exílio e espólio de algus Israelitas, e das tribos perdidas, purificação e castigo divino.


Algumas notas de rodapé e comentários marginais (especialmente nas edições editadas por rabinos da tradição oriental) sugerem que certos desses grupos seriam descendentes de Abraão, de Keturá, ou mesmo de Israelitas do Reino do Norte, dispersos após a invasão assíria (cf. Ginzberg, Legends of the Jews).


5. Grupos de “Irmãos Escuros” e os Domari no Zohar


No Zohar, texto central da mística judaica, aparecem alusões a grupos “escuros” ou “misteriosos” que habitam as margens da civilização israelita. Em Zohar I:25b, lê-se:


“Existem irmãos escuros, errantes, que caminham por trilhas esquecidas... sua sabedoria é antiga, anterior ao Dilúvio.”

Essas descrições têm sido associadas, por alguns comentaristas (Isaac Luria, Cordovero), a linhagens espirituais ocultas, possivelmente relacionadas a descendente dos filhos de Keturá, ou de povos não identificados de linhagem abraâmica. O estilo de vida desses grupos — música, dança, itinerância e códigos ocultos — ressoa com aspectos culturais dos Roma e Domari do Oriente Médio.


As tradições orais coletadas no norte da África e na Península Ibérica incluem romances e histórias populares sobre gitanos com traços judaicos, como a celebração do sábado, o uso do hebraico litúrgico ou práticas dietéticas casherizadas. Antonio Gómez Alfaro, pesquisador espanhol dos Calé, colaborou com Armistead e Silverman na documentação desses romances judeo-espanhois, especialmente em Tânger. Esses registros são valiosos como indicadores de um fluxo cultural entre comunidades judaicas e ciganas, especialmente entre os Calé.


6. Tradições Sefarditas: Gitanos Justos e Irmãos Errantes


Entre os séculos XVI e XVIII, tradições orais sefarditas documentadas em manuscritos da diáspora ibérica e otomana relatam a presença de grupos nômades que viviam em contato com comunidades judaicas. Alguns desses relatos os descrevem como "gitanos justos" ou "ahín shekína" (irmãos justos), para alguns "ahím shejaḥú" (irmãos estranhos), associados a linhagens judaicas perdidas, àqueles que foram convertidos à força ou que optaram por uma forma de vida paralela.

Segundo Graziadio Nepi (1785), rabino italiano de origem sefardita:


“Em algumas comunidades da Ásia Menor, fala-se de povos errantes que observam costumes antigos dos israelitas... e que mantêm fidelidade às festas, mesmo sem saber seus nomes. Dizem que vêm de uma tribo esquecida, e por isso são chamados nossos irmãos que erraram.”


Em sua análise das tradições sefarditas preservadas por Yitzhak Levy e sua comunidade, Samuel G. Armistead e Joseph H. Silverman (1987) e Antônio Gómez Álfaro (XVII-XVIII) destacam a continuidade de narrativas orais nas quais os ciganos são vinculados aos Recabitas e aos Levitas descendentes de Moisés. No contexto sefardita, tradições orais dos séculos XVI a XVIII relatam judeus vivendo em contato com grupos nômades — identificados em alguns manuscritos como "gitanos justos" ou "irmãos errantes", muitas vezes tratados como possíveis descendentes de tribos perdidas ou judeus convertidos à força.



Os Recabitas, grupo bíblico nômade que recusava o sedentarismo, o consumo de vinho e a prática agrícola, são descritos em certas tradições como parcialmente integrados à tribo de Levi. Essa representação ressoa profundamente tanto com a espiritualidade romani quanto com os elementos da mística judaica. Os paralelos entre práticas de pureza, itinerância ritual e condição marginalizada emergem com destaque em baladas sefarditas, nos cantos das sinagogas e em registros orais transmitidos entre judeus e Calé — particularmente entre os chamados "Kalé-rudios" na Espanha e "Calô-judeo" em Portugal.


Em centros como Livorno, Salonica e Esmirna, onde floresceram comunidades sefarditas após a expulsão de 1492, alguns manuscritos litúrgicos e de crônicas locais mencionam os "ajín shejaḥú". Este termo, presente em textos litúrgicos em judeu-espanhol e hebraico, por vezes aparece ao lado de expressões como "gitanos tsadikim" (ciganos justos), tratando-os como descendentes de judeus afastados da comunidade, convertidos à força ou escondidos entre povos nômades. Estas menções são raras, mas ganharam visibilidade por meio da compilação de tradições orais por estudiosos como Samuel Armistead e Joseph Silverman.


O historiador Joseph Pérez, em sua análise sobre a Inquisição espanhola, afirma que os ciganos ofereciam refúgio a perseguidos — incluindo marranos e hereges. Embora tratados com desconfiança pelas autoridades, essas comunidades nômades possuíam redes de solidariedade paralelas às da diáspora judaica. Pérez destaca que essa convivência, embora marginal, foi decisiva para a sobrevivência de tradições criptojudaicas na Ibéria.


7. Discussões Rabínicas e Outras Fontes 


Diversas tradições rabínicas medievais, especialmente nos círculos orientais de Bagdá, Alepo e Cairo, relatam a existência de grupos nômades que guardavam mitsvot (mandamentos) sem conhecer plenamente seu conteúdo ou origem. Esses grupos são por vezes associados às chamadas Tribos Perdidas de Israel. Embora os manuscritos originais dessas tradições ainda estejam em processo de catalogação por instituições como a Biblioteca Nacional de Israel, as lendas sobre essas tribos persistem em fontes como The Legends of the Jews, de Louis Ginzberg. O autor compila tradições do Midrash e do Talmude que sugerem uma continuidade da herança judaica entre povos marginalizados e nômades — argumento que, segundo alguns estudiosos contemporâneos, pode incluir certos ancestrais dos ciganos.



7. Conclusão


A figura do povo nômade justo, errante e fiel a um pacto ancestral, ressurge ao longo das tradições judaicas como arquétipo sagrado. A análise dos Recabitas, do Midrash, do Talmude e das tradições místicas e sefarditas nos permite considerar os Roma — especialmente os grupos Domari e Kalé — como portadores de uma herança cultural e espiritual mais complexa do que geralmente reconhecido. Ainda que não se possa afirmar com certeza histórica uma descendência judaica direta, os símbolos, metáforas e tradições preservadas indicam ressonâncias profundas entre essas culturas.


A presença de referências aos ciganos nas tradições judaicas, rabínicas e sefarditas revela uma memória complexa de convergência, ocultamento e preservação identitária. Seja na figura dos Recabitas, nos manuscritos sefarditas ou nos relatos históricos de refúgio mútuo, emerge uma narrativa possível de intersecção entre o povo judeu e os povos roma. Estes vestígios, embora fragmentários, convidam a uma reavaliação dos vínculos históricos entre comunidades marginalizadas, revelando laços esquecidos ou deliberadamente apagados pela história dominante


BIBLIOGRAFIA:


• BEN ZVI, Ehud. Social Memory among the Recabites and the Roma: An Intertextual Reading. Jerusalem Studies in Biblical Interpretation, 2007.

• GINZBERG, Louis. The Legends of the Jews. Philadelphia: Jewish Publication Society, 1909–1938.

• MIDRASH RABÁ. Bamidbar Rabá. Trad. e comentários de Shlomo Buber, Vilna, 1891.

• TALMUD BAVLI. Sanhedrin, Avodah Zarah. Ed. Vilna.

• TALMUD YERUSHALMI. Berachot 9:1. Ed. Leiden.

• ZOHAR. Sefer ha-Zohar. Ed. Daniel Matt. Stanford University Press, 2003.

• NEPI, Graziadio. Cronicas e Memorias de la Sefarad Errante. Manuscrito inédito. Arquivo de Livorno, 1785.

• HANCOCK, Ian. We are the Romani People. Hatfield: University of Hertfordshire Press, 2002.

• ROTH, Cecil. The History of the Marranos. New York: Schocken, 1932.

• PÉREZ, Joseph. The Spanish Inquisition. London: Profile Books, 2006.

• SCHÄFER, Peter. The Origins of Jewish Mysticism. Princeton: Princeton University Press, 2009.


FONTES ADICIONAIS:


1. Tradições Orais e Relatos Judaicos


• Fonte: GINZBERG, Louis. The Legends of the Jews. Philadelphia: Jewish Publication Society, 1909–1938.

2. Os Recabitas como Modelo de Povos Errantes Justos

• Fonte: 

• MIDRASH RABÁ. Bamidbar Rabá. Trad. e comentários de Shlomo Buber, Vilna, 1891.

• TALMUD BAVLI. Sanhedrin, Avodah Zarah. Ed. Vilna.

3. Manuscritos Sefarditas da Diáspora Otomana

• Fonte: 

• ARMISTEAD, Samuel G.; SILVERMAN, Joseph H. Folk Literature of the Sephardic Jews. Berkeley: University of California Press, 1972–1994.

4. Pesquisadores que Compilaram Tradições Orais Sefarditas

• Fonte: 

• ARMISTEAD, Samuel G.; SILVERMAN, Joseph H.; GÓMEZ ALFARO, Antonio. Romances judeo-españoles de Tánger. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1977.

5. Cecil Roth e os Contatos entre Judeus Conversos e Ciganos

• Fonte: 

• ROTH, Cecil. A History of the Marranos. Philadelphia: The Jewish Publication Society of America, 1932. Disponível online

6. Joseph Pérez e Comunidades Ciganas que Abrigavam Judeus Fugitivos

• Fonte: 

• PÉREZ, Joseph. The Spanish Inquisition: A History. London: Profile Books, 2006.


Marimé, Kosher e Ṭahāra: Paralelos das Leis de Pureza entre os Roma, Israelitas e Povos Árabes

 Marimé, Kosher e Ṭahāra: Paralelos das Leis de Pureza entre os Roma, Israelitas e Povos Árabes


As leis de pureza ritual, "mahrimem"


O conceito cigano de "mahrimem" equivale à forma negativa do conceito judaico de "kosher" e Ṭahāra aos árabes; o primeiro indica leis de impureza ritual, enquanto o segundo se refere à pureza ritual. O que é "marimé" (impuro) para um cigano não é "kosher" para um judeu ou "Haram" para um árabe/islâmico, portanto, ambos tomarão as medidas necessárias para não se contaminarem com tais coisas, ou, se forem uma contaminação necessária e inevitável, ambos seguirão certas regras para se purificarem. Da mesma forma que o kashrut judaico, as regras que regulamentam o marimé e a voshún cisão um valor fundamental na sociedade cigana, que estabelece os limites de comportamento dentro de seu âmbito social e espiritual e condicionam seu relacionamento com o mundo exterior (a sociedade Gadje/Godjun).


Os ciganos classificam tudo em duas categorias: "vuzhó/voshún" (=kosher, puro) ou "marimé" (impuro). Essa classificação diz respeito principalmente ao corpo humano, mas se estende ao âmbito espiritual, à casa ou acampamento, aos animais e aos objetos.


* O corpo humano


Em primeiro lugar, os órgãos genitais, pois conduzem as secreções impuras para fora do corpo, e a parte inferior do corpo, por estar abaixo dos genitais. A parte superior externa do corpo é pura, sendo a boca a primeira delas. As mãos são transitórias, pois realizam atos puros e impuros; portanto, devem ser lavadas de maneira específica, por exemplo, ao comer após calçar os sapatos ou ao acordar da cama (a cama é impura por estar em contato com a parte inferior do corpo). Quando as mãos estiverem contaminadas, devem ser lavadas com um sabonete diferente e secas com uma toalha diferente para torná-las puras. Sabonetes e toalhas diferentes são sempre usados ​​para a parte superior e inferior do corpo, e não podem ser trocados. A bacia de cobre é utilizada tanto para judeus e ciganos para lavagem de cor, itens e objetos.


* Roupas


São cuidadosamente diferenciadas, pois devem ser lavadas separadamente, em recipientes específicos para cada categoria. Roupas impuras devem sempre ser lavadas na bacia marimé, enquanto roupas puras são separadas da toalha de mesa e dos guardanapos, que possuem seu próprio recipiente de lavagem. Roupas da parte superior do corpo e roupas infantis são lavadas na bacia voshún, e roupas da parte inferior do corpo, na bacia marimé. Todas as roupas femininas são consideradas impuras durante a menstruação e lavadas junto com as peças marimé. Os únicos povos, além dos ciganos, que seguem essas regras de lavagem são os judeus.


* O acampamento


Antes da recente urbanização forçada, a casa cigana era o acampamento, e não a casa propriamente dita. O acampamento goza do estatuto de pureza territorial, pelo qual as necessidades fisiológicas são realizadas fora de suas proximidades (ou, eventualmente, os objetos de higiene são colocados fora do acampamento), sendo comum banheiros no lado de fora ou próxima da porta traseira da casa. Além disso, o lixo deve ser jogado a uma distância aceitável do acampamento ou queimados.


* Nascimento


O parto é um evento msto de impuro com puro e deve ocorrer em uma tenda isolada, fora do acampamento, quando possível. Após o nascimento da criança, a mãe é considerada impura, de marimé, por quarenta dias, se menino e sessenta dias se menina, principalmente na primeira semana: esta regra é. Durante esse período, a mulher não pode entrar em contato com objetos puros, pratos, copos e utensílios especiais são designados a ela, os quais são descartados após os 40 dias de sua purificação ou escaldados. As roupas que ela usava e sua cama são queimadas, assim como a tenda ou caravana onde ela se hospedou durante esses 40 dias. Esta lei é desconhecida por todos os povos, exceto pelos ciganos e judeus. O motivo dessa crença é a perda da placenta, onde nós ciganos já sabiamos que se tratava de um orgão (este que deverá ser enterrado ou queimado, como em tradições sefarditas), o sangue envolvido e a separação de mãe e filho, antes eram um só decaindo de um status especial. 


* Morte


A morte de alguém confere impureza a todos e a tudo que estava relacionado àquela pessoa naquele momento. Todos os alimentos presentes na casa do falecido devem ser descartados, e toda a família fica impura por três dias. Regras específicas devem ser observadas durante esses três dias, como lavar-se apenas com água para não fazer espuma; pentear ou barbear-se é proibido, assim como varrer, fazer buracos, escrever ou pintar, tirar fotografias e muitas outras coisas. Os espelhos são cobertos. O local onde ocorreu a morte é abandonado e transferido para outro lugar, ou a casa é vendida, em casos extremos queimada. Acredita-se que a alma do falecido vagueia durante três dias de purificação antes de alcançar a morada final. O conceito de que o contato com um cadáver confere impureza não é encontrado em nenhuma tradição antiga, exceto na entre judeus e árabes, entre os hindus não há isso. Conforme estabelecido pela Krispen entre os ciganos os mortos devem ser sepultados e não podem ser cremados, exceto se eram anciões e membros da Kris Romá, dessa forma são cremados numa pira funeraria que deve arder até a fumaça ficar branca.


* Espíritos


Os espíritos malignos são marimé, que também é um conceito judaico. Entre eles o: Mengué, Neshuca, Nasulim, Beng e etc.


* Leis matrimoniais


O noivado e o casamento ciganos são celebrados da mesma forma que no antigo Israel e populações árabes beduínas. Os pais de ambos os noivos desempenham um papel essencial na organização do dote da noiva, e a celebração ocorre dentro da comunidade cigana, sem a participação das instituições dos Gadje, exceto para formalização posterior para garantir herança e evitar que bens não estejam escriturados (prática reforçada após anos de confisco de bens de ciganos). Caso a moça fuja com o noivo sem o consentimento dos pais, eles são considerados um casal casado, mas a família do noivo deve pagar uma indenização aos pais da noiva, geralmente equivalente ao dobro do valor do dote; essa indenização é chamada de "Daró", a noiva independentemente de ter realizado a fuga ou não recebe a "Tekapará" conjunto de joias e moedas para seu uso pessoal como mulher casada, palavra com o mesmo significado do termo hebraico "kfar" (Deuteronômio 22:28-29). O pagamento do dote pela família do noivo aos pais da noiva é uma regra bíblica, exatamente o oposto do que ocorre entre os povos indianos, nos quais é a família da noiva que paga à família do noivo.


Existe um preceito específico que deve ser observado para consolidar o casamento, o "pano de prova de virgindade", panelo/tela para os calón e dikloceló para os Vlax, que deve ser mostrado as partes interessadas da família e aos anciões. Há variações nessa tradição, com o pano após a primeira relação ou das matriarcas de ambas as famílias inserindo com auxílio de um objeto duro mas pequeno na região íntima da moça durante explicações sobre a vida conjugal. É claro que, no caso de casais que fogem, tal regra é sem sentido e, consequentemente, não é observada, sendo estratégias de casais que tiveram relações antes do casamento ou quando a moça já não era mais virgem, porém o rapaz prosseguia mesmo assim. Em relação a virgindade do homem. também é cobrada, mas não há provas para tal, alguns ciganos tinham como hábito dar vinho os fututos noivos da filha para retirar "verdades".


* Comportamento social


Assim como os judeus, os ciganos adotam padrões de comportamento diferentes para os relacionamentos com seu próprio povo e para a interação com pessoas de fora, de modo que podemos afirmar com certeza que a oposição entre ciganos/gadje, judeus/gentios e árabes/não-árabes é regulamentada de maneira bastante similar, talvez idêntica em quase todos os detalhes.


Como os Gadje desconhecem as leis que regulamentam o marimé, são suspeitos de serem impuros ou simplesmente presume-se que o sejam; consequentemente, os Romá não se hospedam nas casas dos Gadje nem comem com eles; Porém, isto foge a regra quando trata-se de dar "mila" a viajantes disponibilizando uma área isolada e utensílios isolados aos que buscam um lugar de dormida. Os Gadje que se tornam amigos dos Roma são admitidos após tomarem conhecimento das principais regras que devem observar para não ofender a comunidade e depois de passarem por alguns "testes" de confiabilidade. Muitos Gadje que tornaram-se amigos verdadeiros dos ciganos aceitando e vivendo sob as regras, principalmente em contexto de diáspora e ascensão social por meio de contados entraram discretamente em famílias Romá por meio de casamentos, sobretudo de filhos problemáticos Romani, semelhante aos povos que aceitam viver sobre as regras dos judeus e árabes. 

Caso contrário, são repelidos e as instituições Gadje são usadas exclusivamente como uma "área de livre comércio", onde atividades impuras podem ser realizadas com segurança – um exemplo típico é o hospital, que permite evitar a montagem de uma tenda especial para partos. Cortesia, respeito e hospitalidade são obrigatórios entre os Roma. Ao se cumprimentarem, devem perguntar pela família um do outro, desejando a todos o bem e bênçãos, mesmo que se encontrem pela primeira vez e não conheçam as respectivas famílias. A autoapresentação inclui os nomes dos pais, avós e de quantas gerações a pessoa se lembrar — o nome civil e o sobrenome são irrelevantes; os ciganos são chamados como no mundo judaico e árabe filho de A, filho de B, filho de C, da família de D. Isso, no entanto, é uma característica comum a muitos povos orientais, mas a forma como os ciganos formulam esses termos é bastante bíblica.


Entre os ciganos, as causas judiciais são apresentadas à assembleia de anciãos, conforme previsto na Lei Mosaica. A assembleia de anciãos ciganos é chamada de "kris" e constitui um verdadeiro Tribunal de Justiça, cujas sentenças devem ser obedecidas, sob pena de expulsão da comunidade cigana, em crimes graves um Xolivalo (vingador de sangue) é designado em crimes de Shudiné, Phralimurdé e Murdadoné. Os casos geralmente não são tão graves a ponto de não poderem ser resolvidos com o pagamento de uma emenda.


Existem muitos outros aspectos que podem ter importância secundária, mas que, de qualquer forma, remetem aos antigos costumes e regras israelitas. Infelizmente, esses detalhes estão se perdendo com as novas gerações (assim como muitos se perderam entre os judeus também) devido aos sistemas da sociedade moderna que restringem a liberdade individual e das comunidades "exóticas". Os ciganos não sentem nenhuma atração pela cultura ou música indiana, talvez hoje com essa ideia consolidada de sermos "indianos diluídos" por meio de "misturas", o mais comum é a crença de escravidão no Egito e sermos nomâdes do deserto. 

Na Europa Oriental, a maioria das expressões folclóricas são judaicas ou ciganas, e muitas vezes a mesma obra é atribuída a uma ou outra dessas duas tradições. Bandas de "klezmorim" eram frequentemente compostas por ciganos em conjunto com judeus, e o estilo europeu de jazz foi cultivado tanto por ciganos quanto por judeus. A música Rumlaí/Romalaja foi desenvolvida por ciganos e judeus no balcãs com poemas e cânticos de amor. O flamenco provavelmente se originou entre os ciganos Andaluzes e Judeus sefarditas em baladas frequentadas por ambos, antes de serem expulsos da Espanha e, posteriormente, sendo continuamente desenvolvido pelos ciganos que permaneceram naquele país. A dança do ventre foi criada por ciganas Ghawazzín do Egito, difundidas no mundo árabe, infelizmente as cigans Domari do subclã Ghawar foram perseguidas e prostituidas por serem creditadas a aumentar a fertilidade masculina.  

Em outros aspectos, os ciganos possuem grande habilidade comercial (e, se precisam trabalhar em sociedade, preferem os judeus) e aqueles que optam por uma inserção profissional na sociedade cigana geralmente preferem as mesmas carreiras escolhidas pelos judeus (talvez relacionado às leis de pureza, que não permitem o exercício de qualquer tipo de trabalho). 



Ciganos Romani: Etnias, Subdivisões e Raízes Históricas

 Ciganos Romani: Etnias, Subdivisões e Raízes Históricas


1. Origem e formação do povo Romani

Os estudos genéticos contemporâneos vêm reformulando o modelo tradicional que atribuía a origem do povo Romani (Roma) exclusivamente ao subcontinente indiano. Evidências genômicas indicam uma história populacional muito mais complexa, com fortes contribuições do Cáucaso e do Oriente Médio anteriores à chegada à Europa. Análises recentes (Mendizabal et al. 2012; Bánfai et al. 2018; Ena et al. 2022) mostram que os Roma descendem de uma população indo-caucasiana formada por sucessivos fluxos genéticos entre grupos do Irã, Mesopotamia, do Cáucaso e do Noroeste da Índia (Punjab–Rajastão), entre o séc. II a.c e I.d.c.


Assim, a trajetória migratória mais aceita hoje é:


> Cáucaso / Irã-Iraque/ Ásia Central → Noroeste da Índia → Pérsia → Anatólia → Europa


Esse percurso explica a predominância, nos genomas romani, de ancestralidade oeste-eurasiática (65–80%), além de componentes caucasianos e semíticos marcados pelos haplogrupos J1, J2, G e E1b1b. Sugestionando origens levantinas pré-árias.

A Índia, portanto, foi uma etapa crucial de formação, mas não o ponto inicial absoluto. A ancestralidade original dos Roma remonta a povos indo-iranianos e citas, que migraram entre o planalto iraniano e o vale do Indo antes de se dispersarem rumo ao Ocidente.


Curiosamente, essa leitura científica dialoga diretamente com a tradição oral romani, segundo a qual os antepassados vieram da antiga Cítia, foram irmãos dos Jott/Zott, levados como escravos a Brahmit (Índia), permaneceram no Reino de Rajput (Reino Negro) e foram expulsos pelo sultão — um eco fiel das rotas genéticas hoje confirmadas.


2. Estrutura e principais subdivisões Romani


A população romani contemporânea, dispersa em todos os continentes, organiza-se em três grandes blocos históricos e culturais, além de diversos grupos autônomos e regionais.


2.1. Roma do Leste (Vlax e Balkanó Romá)


Os Romá orientais incluem grupos como Kalderash, Urshari, Churari e Lovari, amplamente distribuídos pelos Bálcãs e Europa Oriental.

O termo Vlax (ou Vlach) deriva do nome usado por povos germânicos para designar populações de língua latina, especialmente romenas.

Muitos destes grupos mantiveram, até recentemente, tradições artesanais, como a metalurgia, atividade associada historicamente à alquimia e à mística. O nome “Kalderaš”, por exemplo, deriva de “caldeira” — fabricante de panelas e chaleiras.

Os territórios eslavos ofereceram condições mais tolerantes e propícias ao modo de vida cigano, talvez porque os Roma, vindos da antiga “Chynthia”, encontraram maior afinidade cultural e simbólica na Europa cita (do Mar Negro e Cáucaso) do que na Europa “ariana” ocidental. Muitos utilizaram essa similaridade para ascender socialmente com casamentos mistos. 


2.2. Romá/Sinth da Europa Central – Sinti / Manuš


Os Sinti (ou Manushe) constituem o principal grupo romani da Europa Central e de língua alemã. Por terem se estabelecido cedo nas terras do antigo Império Romano-Germânico, desenvolveram-se isoladamente dos demais grupos, a ponto de serem considerados uma identidade quase autônoma — os chamados “Roma Germânicos”.

Ao contrário de outros, os Sinti não se autodenominam “Rom”, alguns pós-holocausto (porrajmos/samudaripen) e por isso se tornou comum a expressão “Roma e Sinti”, usada na Alemanha e Áustria, embora ambos façam parte da mesma matriz étnica.

Culturalmente, os Sinti preservaram uma forma linguística própria, divergente em múltiplos pontos do romanês, e tradições de música itinerante, ferraria e espetáculo, sendo historicamente artistas, músicos e acrobatas.


2.3. Roma Ocidentais – Calé / Calón


Os Calé (ou Caló na Espanha e Calón em Portugal) são os Roma ibéricos.

Foram provavelmente os primeiros ciganos a chegar à Península Ibérica, no início do século X-III a XV, e os primeiros a chegar às Américas, integrando expedições espanholas e portuguesas. Apesar de citações no Concílio de Elvira como "Nomâdes Negros" por volta do ano 320 na Espanha e relatos árabes/mouros no séc. IX nas regiões da Tunísia, Argélia, Marrocos e Egito no Norte da Africa.


Sua influência cultural é profunda: o flamenco nasceu do encontro entre a tradição musical sefardita e a expressão espiritual cigana andaluza. A observância da lei do marimé (pureza ritual) levou os ciganos a ocuparem casas deixadas pelos judeus expulsos em 1492, fato que será posteriomente explicado a fusão entre o cante jondo, a religiosidade cigana e os kalé-sefardim.


Os Calé estão divididos em subgrupos 

Na Espanha: 


Andaluzes – os mais numerosos e socialmente integrados, pilares do flamenco clássico;

Catalães – conhecidos pelas rumbas e pela presença no sul da França;

Extremenhos e Castelhanos – mais conservadores e próximos dos Calón portugueses;

Bascos – preservam o dialeto Errumantxela, misto de romanês e euskera, com principal ancestralidade vlax e calé.


Em Portugal: Galegos, Lisboanós, Bragués e Portugueses.


Os Calón portugueses formam uma comunidade historicamente marginalizada, perda forçada de costumes, tradições e mesticidades, mas atualmente em processo de revalorização cultural.

No Brasil, a herança Calón é visível desde o período colonial, através de deportações forçadas e posteriores ondas migratórias. Hoje, comunidades Calón e Roum brasileiros se destacam pelo crescimento educacional, adesão religiosa e papel político — inclusive com figuras ciganas que chegaram à Presidência da República como Juselino Kubitschek.

Deportados para as colônias britânicas e ibéricas, muitos se misturaram com populações indígenas e africanas, originando comunidades mestiças como os Ciganos Brasileiros. Outros migraram voluntariamente em busca de liberdade — e no continente americano encontraram uma terra mais acolhedora.


3. Outros grupos e povos relacionados


3.1. Domari


Os Domari são muitas vezes chamados de “Roma do Oriente Médio”, mas formam um povo distinto. Sua língua é aparentada ao romani, com raízes no antigo indo-iraniano, mas evoluiu separadamente.


Vivem entre o Magreb e a Ásia Central, sendo conhecidos como Náwwar, Qorbat, Karači ou Ghurbat (“exilados”).

Historicamente, parecem derivar de antigas tribos citas estabelecidas no Vale do Indo, que, assim como os Roma, deixaram a Índia rumo ao Oeste em busca de retorno à sua pátria original no Oriente Médio.

A etimologia de Domari pode remontar a Edom, povo semita-hurrita, o que reforça a hipótese de origem indo-caucasiana e israelita antiga.

Hoje, apenas a comunidade Domari de Jerusalém possui representação formal, sendo reconhecida pelo Estado de Israel.


3.2. Lomaris: Karachi, Posha e Luli (Lyuli)


O termo Lomari (às vezes “Lomavren” ou “Lomi”) designa um dos ramos medievais esquecidos da grande família dos povos romani — um elo entre os Domari do Oriente Médio e os Romani da Europa.

Eles são fundamentais para entender a fase intermediária da migração, quando o povo cigano ainda circulava entre Anatólia, Cáucaso e Armênia, antes da entrada definitiva na Europa.

Os Karachi e Luli (Lyuli) habitam o Azerbaijão, Tadjiquistão e regiões da Ásia Central.

São descendentes de populações indo-iranianas e turcomanas nômades, culturalmente próximas dos Domari, embora com fortes influências persas e túrquicas.

Os Luli se autodenominam Mughat (“adoradores do fogo”), refletindo antigas práticas zoroastrianas, e Ghurbat (“exilados”), conceito simbólico que atravessa toda a diáspora romani.

Linguisticamente, ela preserva elementos de um proto-romani oriental, anterior à fixação da língua Romani clássica dos Bálcãs.

Hoje o Lomavren é quase extinto, falado apenas por anciãos nas comunidades Lom da Armênia, Geórgia e Turquia oriental. São poucas centenas de famílias, muitas assimiladas, mas ainda guardando traços linguísticos e memoriais da antiga identidade Lomari.

O Lomavren é reconhecido como língua ameaçada pela UNESCO.


3.3. Gadia Lohar, Banjara e Rajasthanés: 


Os Gadia Lohar, Banjara e os Rajas do Rajastão são ferreiros nômades que vivem em carroças chamadas gadia. São de origem rajput, e sua vida itinerante é cumprida em voto ancestral — lembrando o estilo de vida romani, embora sejam uma tribo distinta compartilham rotas semlehantes e muitos deles são de origem mestiça semita.


3.4. Grupos de Viajantes (Travellers)


Além dos povos romani e domari, a Europa conheceu outros grupos nômades independentes, conhecidos genericamente como “viajantes/Itinerantes”.


Yenish (Jenisch/Isqueiros) – de origem germânica, formados por artesãos itinerantes; falam um dialeto misto de alemão, rotwelsch, iídiche e romani;

Viajantes Irlandeses (Pavee) – de origem celta, falam Shelta e preservam tradições de metalurgia e narração oral;

Viajantes Escoceses – falam Cant (gaélico com elementos romani), conhecidos como contadores de histórias e músicos.


Esses grupos não são Romani, mas compartilham o mesmo amor pela liberdade e pela vida errante — uma afinidade espiritual mais que étnica.


4. A Diáspora e a nova identidade global


O povo Romani viveu séculos de perseguição e dispersão. Os Melungeons e Mercheiros são populações mestiças de ciganos, isqueiros, irlandeses viajantes e povos locais, vivendo em constantes expulsões como os romani.

Nos séculos XX e XXI, a adesão em massa ao cristianismo evangélico tem se tornado um elo espiritual entre grupos Romani de diferentes origens, reconstruindo uma identidade unificada que transcende as divisões históricas entre Roma, Sinti, Calé e Lovari.

Essa nova fase é marcada pela educação, liderança religiosa e inserção social, sem perda das tradições — um renascimento cultural e moral do povo cigano.


A visão clássica situa a origem dos Roma no noroeste da Índia há cerca de 1.500 anos, vem sendo reformulada e abandona com as novas análises genéticas têm identificado componentes caucasianos e do Oriente Médio mais antigos que o contato europeu, sugerindo uma rota migratória mais ampla, ou até uma origem parcialmente enraizada nessas regiões.


Bánfai et al. (2018)

Revealing the impact of the Caucasus region on the genetic legacy of Romani people ([PMC6130880])

 “O padrão de haplótipos compartilhados aponta para fluxo gênico com populações do Oriente Próximo e do Cáucaso, provavelmente anterior à migração para a Europa.” Isto propõe que antes da chegada à Europa, os antepassados dos Roma tiveram contato genético intenso com populações do Cáucaso e Oriente Médio, o que poderia indicar uma fase prolongada ou mesmo origem parcial ali.


Mendizabal et al. (2012)

Reconstructing the Population History of European Romani ([PubMed 23219723])

“O genoma Romani mostra uma estrutura em mosaico resultante de ancestralidades sul-asiática, do Oriente Médio e do Cáucaso, anteriores à dispersão europeia.”

Sugere uma rota mais tradicional, Pré-ário  Índia → Pérsia → Cáucaso → Anatólia → Europa entre 900 a 1500 d.c. mas não negando a possibilidade pregressa. Índia → Pérsia → Cáucaso → Anatólia → Europa entre 900 a 1500 d.c.


Font-Porterias et al. (2019)

European Roma groups show complex West Eurasian admixture footprints and a common South Asian genetic origin (PLOS Genetics)

"Os grupos Roma compartilham ancestralidade do noroeste da Índia, mas refletem ampla mistura com populações do Irã, Cáucaso e Anatólia.”

Reforça uma trajetória que passa pela Ásia Central, Irã e Cáucaso, antes da Europa. A Índia seria apenas uma das fases mais antigas, não o ponto inicial absoluto, sugerindo a possibilidade de uma fase anterior a Índia.


Ena et al. (2022)

Population Genetics of the European Roma — A Review ([PMC9690732])

“Os genomas Romani contêm 65–80% de ancestralidade oeste-eurasiática (europeia, do Oriente Médio e caucasiana), com eventos de mistura anteriores à entrada na Europa.”

O DNA mostra predominância de componentes caucasianos e médio-orientais, anteriores à chegada europeia.


Martínez-Cruz et al. (2016)

Origins, Admixture and Founder Lineages in European Roma ([PubMed 26374132])

"As linhagens paternas mostram afinidades significativas com haplogrupos do Oriente Médio e do Cáucaso.”

Haplogrupos como J1, J2, G e E1b1b reforçam a conexão com regiões semíticas e caucasianas.


Os dados sugerem um percurso migratório e genético estruturado da seguinte forma:

Cáucaso / Oriente Médio / Ásia Central → Noroeste da Índia (Punjab–Rajasthan) → Pérsia → Anatólia → Europa


Essa trajetória explica:


A predominância de ancestralidade oeste-eurasiática (65–80%);

O componente indiano moderado (5–30%);

Muitos Kalon, Romanichéis e kalderas apresentam entre 1-5<%;

A presença de haplogrupos caucasianos e semíticos;

São raros os casos de ciganos apresentarem entre 30 a 45%, geralmente são família de origem Lomari medieval.

A ausência de marcadores típicos da Índia moderna em certos grupos Romani ocidentais como os Kalé Portugueses do Sul, Sinti da Europa Ocidental, Kalderas da Estônia e Letônia.


Zott, Recabitas e Cananeus: Elo Histórico com os Romani

Crônicas árabes e persas relatam os Zott (ou Jat) como grupos semitas da Mesopotâmia e do Levante, levados para a Índia pelos abássidas. Eram músicos, ferreiros, regadores — profissões também associadas aos Roma. Posteriormente, foram expulsos da Índia, coincidindo com a chegada dos primeiros registros históricos dos ciganos na Europa bizantina.


Os Recabitas, mencionados na Bíblia Hebraica e Cristã (em Jeremias 35) eram nômades hebreus que evitavam a agricultura e viviam segundo uma lei oral de pureza ritual. Seus valores ecoam em práticas romani, como:


• Separação entre puro e impuro 

• Transmissão oral de códigos sociais semelhantes à halakhá.

• Práticas familiares semelhantes às judaicas e árabes.


Grupos como Heveus, Jebuseus e Gibeonitas foram integrados ou expulsos pelos israelitas e impérios sucessores, sendo descritos como nômades e artesãos. Há uma possibilidade de que remanescentes desses povos tenham sido levados ao Oriente como cativos, contribuindo para o substrato dos Zotts hoje são os Domari, evidenciado com as análises genéticas de 2012 a 2019.


A língua romani apresenta termos com possível origem hebraica, aramaica ou árabe:


• Kris (Julgar, Julgamento), semelhante à Krit em hebraico de mesmo significado.

• Ilohima, próximo a Elohim (Deus).

• Dan le Phral, com estrutura que lembra expressões semitas, como "Tan le'Ach", significando "Dar ao Irmão", em contextos de levirato que ocorriam também remotamente em comunidade ciganas, principalmente quando a viúva era de outro clã.

• Nistamé/Michamó (pureza ou separação), semelhante à "Niddah" em hebraico de mesmo significado, usado em comunidade Romanichéis da Irlanda, Islândia, Ilhas Britânicas e da Nova Floresta.

• Mahrime/mahrimem (proibido, ilícito), semelhante à "Herem" em hebraico e "Haram" em árabe de mesmo significado.

• Lelava vindo de Lel e Lieken (tomar/sequestrar), semelhante à "Lekach" em hebraico de mesmo significado.

• Hatyivá (vindo do Hajro Balkanó e Hativo Calé)/Pativá (vindo do Vlax) significa (Fé, Conduzir, Moral), semelhante à "Hatavah" (conduzir ao melhor), significados próximos.

• Mritakam/Mritavat (regras de luto), é possivelmente uma variação híbrida de "Mrta" (morte) em Sânscrito e "Mavet" (Morte) em Hebraico.

• A origem do termo Romani é tradicionalmente associada à palavra Dom (casta indiana) ou ao Império Romano (rom). No entanto, uma hipótese alternativa propõe a raiz semita “rm” (רם / רמה), que significa “exaltar” ou “elevar”, comum ao hebraico, árabe e cananeu — sugerindo “o povo exaltado”, em analogia com o nome “Israel”.


Estudos genéticos do Rajastão e das populações Romani

1. Rajastão e os dados genéticos mais aceitos: Base nos dados mais aceitos por geneticistas como David Reich (Harvard), Vagheesh Narasimhan ...